“Magal e os Formigas” estreou dia 15 de dezembro de 2016. “Eu Fico Loko” em 12 de janeiro de 2017. Estou um pouco atrasado, já que estamos no começo de março. Mas precisava falar sobre esses dois filmes, já que a razão é nobre e necessária. Começo dizendo que não é só a data de lançamento que aproxima os dois títulos. “Magal” é um filme de orçamento mais modesto que “Loko”, mas os dois possuem uma característica em comum, saudável para o cinema nacional, que arrisco dizer que não foi notada por muita gente.

     Tirando a cara de “comédia da Globo Filmes” que ambas têm, ainda mais se você assistiu ao trailer dos dois, trailer, aliás, que, nos dois casos, passa uma imagem errônea do que será visto, as duas “comédias” traem o gênero a que pertencem de uma maneira que deveria ser seguida por outros filmes, estejam eles dispostos (ou sejam aptos) a tanto.

     “Loko”, vendido como um “feel good movie”, uma comédia leve que, aparentemente, foi feita apenas para servir de veículo para o youtuber Christian Figueiredo, se revela, pouco a pouco, cena a cena, um pesadelo adolescente onde tudo que poderia acontecer de errado, acontece. No entanto, como sabe que o protagonista se dará bem no final (o canal dele tem milhões de inscritos), o público acaba não se dando conta desse “lado negro” do filme, que, em alguns momentos, se torna doloroso de uma forma bem convincente e cruel.

     “Magal”, também vendido como uma “comédia para toda família”, onde talvez o clímax do trailer seja o momento em que o protagonista (Norival Rizzo), quase como um ator de comédia pastelão, sofre um mau jeito na coluna tentando imitar os movimentos sensuais do cantor Sidney Magal – e vestido à caráter, diga-se de passagem – na verdade esconde dentro de si um drama doloroso.

     As duas comédias arranjam maneiras diferentes de tornarem a experiência mais agradável para o espectador: “Magal” tem um “lado A” e um “lado B” na sua estrutura narrativa. A primeira metade é mais dolorosa, já que é o momento em que são expostos todos os pequenos dilemas e defeitos dos personagens principais, problemas que parecem insolúveis à primeira vista. Em seu “lado B”, no entanto, a sua vocação de comédia fala mais forte e temos algo que se aproxima de uma “redenção” quase plena para a maioria dos personagens.

     Já “Loko” mantém sempre seu sorriso sarcástico diante dos fracassos de Christian. No entanto, como as piadas são mais leves, nunca deixando a seriedade do drama invadir a tela e, principalmente no final, vemos o quanto o youtuber cresceu através de seu canal no Youtube, também ficamos tranquilos em relação ao seu destino.

     Você pode dizer: “mas não há nada de novo nisso, as outras comédias populares brasileiras – como as da Globo Filmes – também têm conflitos e momentos dolorosos”. O problema é que no caso desses dois filmes, a dor, como é mostrada, parece verdadeira. E isso lança uma enorme distância entre “os outros” e “esses aqui”. Sobre esses dois filmes é possível citar as palavras “crueldade” e “empatia”, coisa que não é possível fazer na maioria das outras comédias populares brasileiras, principalmente as lançadas pela Globo Filmes.

     No caso, “Magal” foi lançado pelo selo alternativo da Globo, não exatamente a “nave-mãe”, o que explica o acabamento mais rústico e próximo de filmes que não pertencem ao “mainstream” do cinema brasileiro. Já o “Eu Fico Loko”, é uma produção da Universal Pictures e da Ananã Produções e, apesar de parecer uma comédia “Globo Filmes” pelo orçamento razoável, bom acabamento e tentativa de alcançar um público amplo, destaca-se acima da manada pela ousadia.

     Talvez estejamos vendo surgir um subgênero dentro do gênero. Mas é preciso poder identificá-lo para que depois ele seja incentivado a crescer e se multiplicar. Nem todas as comédias populares brasileiras podem ser colocadas no mesmo balaio. Se isso for compreendido, será benéfico não só para esses dois filmes, mas para outros que queiram seguir esse filão mais ousado e imprevisível de um gênero que geralmente surpreende pela falta de surpresas que proporciona ao público.

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