É difícil ser criança. Entre outras coisas, você é obrigado a se comportar, mas… o que é “se comportar”? Numa idade tão tenra ainda não temos uma noção totalmente clara do que é certo ou errado. E, o pior, muitos adultos que estão ao nosso lado não nos ajudam nem um pouco a desenvolver essa noção, já que eles tampouco a têm.

     A reação de uma criança diante do comportamento de um adulto pode tornar um filme mais interessante. Mesmo que sua aparição se resuma a uma ponta, como é o caso dos exemplos abaixo.

Pacto Sinistro (1951)

 

   

      A pobre criança da foto está prestes a ter uma grande decepção. A cena em questão se desenrola da seguinte maneira: Bruno Anthony está prestes a matar a mulher de Guy Haines nesse parque de diversões. Ele a persegue como um predador, só que, em meio à “caçada”, este garoto o interpela, “atirando” de brincadeira na sua direção.

     Só de desaforo, Bruno espera ele sair da sua frente para, com um charuto, furar o balão do infante. O garoto olha com cara de espanto, como se dissesse: “Você é um adulto! Não deveria agir dessa maneira!”

     O problema é que Bruno não é um adulto normal e, sim, uma pessoa, no mínimo, perturbada. E ele sabe como acabar com a alegria de uma criança, sem precisar machucá-la. Para uma criança,  deparar-se diante de um adulto desse tipo não é um fato comum, é algo que acontece apenas em seus pesadelos.

     Esse é apenas um pequeno entrecho dentro de um filme de 100 minutos. “Pacto Sinistro” está entre os melhores filmes de Hitchcock.

Butch Cassidy and Sundance Kid (1969)

     Eu admito! Não me lembro se essa cena pertence a “Butch Cassidy”! Engraçado que o tom dela me parece ter tudo a ver com o filme de George Roy Hill. Mas não tenho certeza. Se os leitores do blog puderem me ajudar, usem os comentários. 

     Um homem é baleado, cai para trás e morre. Uma cena qualquer em filmes de faroeste. Com uma pequena diferença: ao lado desse homem havia uma mulher e sua filha. E a filha, ao ver o homem cair, dá risada. A mãe, revoltada, lhe desfere um tapão na cara. E a risada se transforma em choro.

     Por que a garota riu? Ao cair, o homem deixou as botas em pé, o impacto do tiro foi tão forte (e as botas estavam tão folgadas), que o homem caiu, mas as botas permaneceram aonde estavam. Uma cena quase surreal, imprevista, que, se não fosse pela morte de um homem, teria sido muito engraçada.

     Ou, foi engraçada, mesmo com a morte do homem. Adultos, no entanto, sabem que não se deve rir nunca da morte de uma pessoa, enquanto crianças precisam aprender essa lição. E, no velho oeste, isso era ensinado através do tapa.

Fuga à Meia-Noite (1988)

     Em um dado momento, nesse pequeno grande filme, o personagem de Robert DeNiro, que surrupiou a identidade de um agente do FBI, está, dentro de um avião, colando sua foto sobre a foto do agente, para se fazer passar por ele. Ao seu lado, um garoto, uma criança, olha surpresa para a “travessura” que o caçador de recompensas está a aprontar.

     O filme todo é uma grande travessura, como se o diretor estivesse o tempo todo piscando os olhos para o espectador, assinalando sem parar que a chave para fazer com que o mesmo funcione é não levá-lo a sério. Para ser mais claro, é um tipo de comédia que só será admirada por pessoas que achem que nomes como Jack Walsh (Robert DeNiro), Jonathan Mardukas (Charles Grodin) e Marvin Dorfler (John Ashton) são naturalmente engraçados. Não não poucas pessoas e acredito que estou entre elas.

Cheque em Branco (1994)

     Talvez a melhor cena desse filme ocorra, em um dado momento, quando Quigley, o personagem interpretado por Miguel Ferrer, está no parque de diversões, assim como Bruno Anthony em “Pacto Sinistro”. Um jovem, não sei se posso considerá-lo uma criança, mas, vá lá… bem, esse jovem pergunta a ele se sabe onde está a banca de refrigerantes.

     Miguel diz “não” e, ao mesmo tempo, pega seu charuto e fura o balão que está na mão do garoto. É quase a mesma cena de “Pacto Sinistro” e a reação do garoto é, também, calcada na decepção, embora a decepção dele não seja tão grande quanto a nossa, ao notar que o filme tem pouco mais a nos oferecer além disso. Você vai me perguntar, “mas, afinal, qual é a história desse filme”? E eu respondo: “História? Filme”?

     Mais filmes com crianças recebendo “choques de realidade”? Escreva nos comentários!

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