Na década de 20, uma parte das mulheres vivenciava um momento de transformação social e cultural no qual trabalhar, beber, fumar e abandonar os espartilhos tinha se tornado uma realidade, e o penteado da época, o “La Garçonne”, com os seus fios curtos e a franja rente caindo em cima dos olhos, era a escolha mais apropriada e prática para muitas delas. O cinema, é claro, não ficou fora dessa…

A Caixa de Pandora (1929)

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     Pabst torna esse filme inesquecível através dos inúmeros closes revelatórios, não só de Louise Brooks, como de todos os outros atores do elenco, criando um repertório variado de expressões faciais que evocam tanto a beleza quanto uma imensidade de emoções, que soam surpreendentes, devido ao caráter vulgar e banal da história contada.

     Lulu, mais “femme” do que “fatale”, é uma garota que atrai homens e mulheres, evocando emoções vulcânicas e reações violentas, sem ter total consciência do seu poder de sedução, sejam esses admiradores o Dr. Schön e seu filho, uma lésbica ou um homem que representa uma figura paterna, apesar de dar pinta mesmo de ser uma espécie de cafetão.

Viver a Vida (1962)

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     Outra garota, até certo ponto, inocente, Anna Karina gosta de conversar com os homens em diálogos filosóficos e ficar zanzando por aí meio que à toa até ver que sua verdadeira vocação é a “casa da luz vermelha”, revelação que a empurra a um destino trágico e me faz pensar que, talvez, quando uma mulher usa “La Garçonne” em um filme, ela está destinada a seduzir homens e a flertar com a promiscuidade sexual.

     Os bons diálogos colocados na boca de Karina soam como se tivessem sido passados da boca de Godard para ela, o que não me incomoda nem um pouco, já que, com isso, do personagem emana uma aura estranha, de inocência e perspicácia, superficialidade e profundidade, que perpassa as doze sequências do filme e nos dá uma pequena amostra dos lugares até onde Tarantino vai para tirar suas ideias.

O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (2001)

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     Jean-Pierre Jeunet gosta de uma fotografia colorida e deixa-a interessante pelo modo como combina cores primárias em cada plano do filme, além de fazer uso de uma grua que se aproxima e se distancia dos personagens ao seu bel-prazer, detalhes que nos lembram continuamente do cuidado que o diretor de “Delicatessen” e “Ladrão de Sonhos” tem com o visual dos seus filmes.

     “Amélie” é o “patinho feio” ou o “patinho bonito” dessa lista, já que, de todos os filmes, é com certeza o mais “para cima”, e a protagonista é, realmente, do começo ao fim, bem intencionada, sem ser colhida por um destino trágico, o que me leva a seguinte questão: essa inocência enrustida de Amélie, mantida no nível “gracinha” (como diria Hebe Camargo), também é uma técnica de sedução?

Closer (2004)

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     Natalie Portman ostenta a velha inocência adulterada das usuárias do “La Garçonne” e, por incrível que pareça, assim como Anna Karina, não resiste ao chamado da luz vermelha, só que na roupagem moderna e descolada do strip-tease de pole dancing, sem que isso a coloque no velho esquema “mulher liberada que desafia convenções e que atrai todo mundo até ficar na pior e acabar de forma trágica”.

     Na verdade, é quase isso, mas sem o final trágico, substituído por um agridoce, já que a bela mostra-se desencantada com tudo e com todos ao mesmo tempo que alia a peruca channel rosa ao balanço do magro patrimônio nos postes da sedução (minha tradução para pole dancing), deixando tanto Clive Owen quanto Jude Law na mão, quando vai balançar a peruca rosa em outras paragens.

     Mais mulheres ostentando um belo “La Garçonne” em suas cabeças? Além de Mia Wallace, já que achei o cabelo dela comprido demais para estrelar esse post? Escreva nos comentários!

 

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